Publicado em: 04/11/2008 - 16h49min
Além do empréstimo obtido através do Programa Crédito Solidário, uma parceria da Caixa com o Ministério das Cidades, as famílias também conseguiram, por meio da entidade que os representa, a Associação dos Cortiços do Centro (ACC), que a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) cedesse um terreno de mais de seis mil metros quadrados para a construção de 113 apartamentos. A área está avaliada em R$ 2,3 milhões e foi cedida à associação sem ônus.
Concluído, cada imóvel valerá, em média, R$ 30 mil. Os proprietários terão 20 anos para quitá-los, mas, além de fazer o pagamento em dinheiro, também terão que ajudar os funcionários da construtora contratada durante o tempo que durar a obra. Além do valor financiado pela Caixa, outros R$ 869 mil serão repassados pela Secretaria de Habitação do Estado de São Paulo.
As obras terão supervisão da organização não-governamental Ambienta, que atua na área de habitação. A ONG mantém parceria com a ACC desde 2005 e contribuiu tanto para a mobilização dos moradores e como no assessoramento técnico para obtenção do financiamento.
Para a presidente da associação de moradores, Samara Faustino, as famílias contempladas nesta primeira etapa do projeto irão zelar pelos imóveis, tornando o empreendimento um modelo para que outras pessoas sejam beneficiadas. A segunda etapa do projeto prevê a construção de outras unidades habitacionais. De acordo com Samara, embora a associação reúna cerca de 400 moradores, as famílias vivendo nos cortiços santistas são mais de 14 mil.
Segundo a gerente do Escritório de Negócios da Caixa na Baixada Santista, Renise de La Cava, o convênio assinado com a ACC é o primeiro a ser celebrado em toda a Baixada Santista e Vale do Ribeira. Durante a cerimônia de assinatura do contrato, realizada ontem (3) à noite, Renise explicou que o Programa Crédito Solidário é o único a atender associações populares de moradia. “Esse é o único programa que oferece financiamento habitacional sem cobrar juros, com condições especiais que permitem às famílias organizadas em cooperativas ou associações de moradores acessarem o crédito imobiliário como um fator de inclusão social, melhorando sua qualidade de vida”, afirmou.
A coordenadora regional da SPU, Marília Borges, disse que chamou sua atenção uma faixa exposta próxima ao local da cerimônia e onde se lia a frase “mudar sem se mudar”. Mote comum aos movimentos que lutam por moradias populares, refere-se à necessidade de políticas públicas que recuperem áreas degradadas ao mesmo tempo em que possibilitem que seus atuais moradores permaneçam vivendo no local após este ter sido valorizado.
“Isso é significativo. O que o movimento por moradia defende é o direito à cidade. E este, para ser conquistado, exigiu que invertêssemos a lógica de investir onde os investimentos já existiam. Hoje há políticas voltadas para garantir esse direito, mas ainda é essencial a participação popular em todas as instâncias, desde a elaboração dessas políticas até a gestão dos programas sociais”, comentou Marília.
Embora tenha classificado a assinatura do convênio como uma vitória, o arquiteto Rafael Ambrósio, presidente da Ambienta, destacou que essa foi a “primeira etapa” da luta que visa garantir o direito à moradia para parte das famílias que vivem em cortiços.“A sociedade organizada, principalmente a parcela da população que mais sofre com a desigualdade social no país, tem condições de lutar para garantir seus direitos básicos. A participação do Poder Público foi muito importante, mas sem a organização e a força de vontade da comunidade esse projeto não teria se tornado realidade”, afirmou o arquiteto.
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