Publicação admirável do escritor carioca Lima Barreto (1881-1922), O Triste Fim de Policarpo Quaresma finalmente ganha uma encenação teatral na
Bahia. E pelas mãos de Luiz Marfuz, um dos diretores mais respeitados do teatro baiano. O encenador decidiu excluir o “triste fim” do título original e leva ao palco o espetáculo Policarpo Quaresma, que estréia no dia 05 de junho (para convidados), às 20h, na Sala do Coro do Teatro
Castro Alves. A temporada para o grande público começa no dia 07 de junho, depois de mais uma exibição para convidados (no dia 06). A encenação segue em cartaz de quinta a domingo, sempre às 20h, até o dia 20 de julho. Selecionada através do edital TCA.Núcleo para ser a XIII montagem do Núcleo de Teatro do TCA, a peça tem adaptação assinada pelo dramaturgo Marcos Barbosa e traz no papel principal o ator baiano Hilton Cobra. O protagonista já atuou em produções como Solta Minha Orelha, Língua de Fogo e Candaces – A reconstrução do Fogo, esta última encenada pela Companhia dos Comuns, da qual Cobra foi diretor fundador, no Rio de Janeiro.
Também estão no elenco Amarílio Sales (Prêmio Braskem de melhor ator de 2007 pelo desempenho como o protagonista de A Casa de Bernarda Alba), Anderson dy Souza, Bernardo Del Rey, Claudia di Moura, Elaine Cardim, Frieda Gutmann, Jefferson Oliveira, Márcio Bernardes, Mônica Bittencourt, Nélia Carvalho e Osvaldo Baraúna. Os 12 atores foram selecionados dentre 220 inscritos e cumpriram o processo de três meses de ensaios com preparação corporal e vocal construída a partir do universo da cultura popular. A ficha técnica traz nomes como Irma Vidal (iluminação), Miguel Carvalho (figurino), Jarbas Bittencourt (direção musical) e Rodrigo Frota (cenário). “Quero muito falar, através de Policarpo, das pessoas que lutam por um ideal e que não se deixam abater facilmente. Por isso eu não assumo o ‘triste fim’ no título do espetáculo. O destino do personagem será uma surpresa”, anuncia Luiz Marfuz.
O diretor leva à cena a história de um homem que briga por causas nacionais, vai à luta, expõe-se ao ridículo da sociedade, não desiste e é esmagado por ela. A encenação - ambientada no início da Segunda República do Brasil, durante o governo do presidente Floriano Peixoto - fará um diálogo com vários signos populares no canto, na dança e na interpretação, desde a fanfarra até o melodrama, passando pelo circo, reisado, pífanos, caretas e samba-de-roda, dentre outros, tudo isso enredado em um tecido contemporâneo. A dança e a música têm grande importância no contexto desta produção baiana. O espetáculo questiona a construção da identidade nacional através de uma proposta lúdica, profunda e bem-humorada, com trilha sonora original, efeitos cênicos e referências da
Bahia e do Brasil dos dias atuais. Mas nada na peça - tanto na linguagem quanto na estética - se traduz na forma realista.
Marfuz escolheu Hilton Cobra para viver o papel principal por enxergar no veterano ator o imaginário de Policarpo Quaresma: “Quando vi a imagem dele nos testes de seleção, foi muito forte pra mim. Cobra é maior do que sua estatura; briga por grandes causas (a Companhia dos Comuns, composta de um grupo atuante de atores negros, é uma delas); é um militante, um homem do discurso; e, por coincidência, mora no bairro de Santa Teresa, no Rio, onde se passa a história e onde vive o seu personagem. Para mim, ele é o Policarpo e o Dom Quixote nacional, com uma interpretação muito própria, que remete a uma mistura de Grande Otelo com Carlitos”. Hilton Cobra já trabalhou com o diretor em outros espetáculos. Em um deles, Língua de Fogo, chegou a receber o Troféu Martim Gonçalves - premiação cobiçada na
Bahia das décadas de 70 e 80 - na categoria melhor ator coadjuvante.
Ao optar por uma das obras mais admiráveis de Lima Barreto, Luiz Marfuz homenageia um escritor que, segundo o diretor baiano, até hoje é um incompreendido. “Ele é tido como um autor pré-modernista. É um rótulo que muita gente discorda. Eu também, que o considero moderno. Leio coisas que Lima fala do Brasil republicano daquela época que são iguais aos dias de hoje. Gosto muito da sua ironia feroz, da mordacidade, e trago muito isso para o espetáculo. Foi um escritor impiedoso com o poder, com a política, num período de censura ferrenha”, enaltece o encenador. Essas características se mostram tão impregnadas na obra de Lima Barreto que não é necessário grande esforço para tornar tudo isso teatralmente contemporâneo. Além do espetáculo, o projeto Policarpo Quaresma também abrange um ciclo de oficinas artísticas e um fórum de debates que irão acontecer ao longo da temporada. As discussões do fórum terão participações de especialistas nos temas, como identidade brasileira, raízes culturais e o processo de construção da obra artística em foco.
A OBRA ORIGINAL
O Triste Fim de Policarpo Quaresma foi levado a público pela primeira vez em folhetins publicados no período de agosto a outubro de 1911, no Jornal do Commercio, no Rio de Janeiro. Quatro anos depois, no mesmo estado, a obra foi finalmente impressa em livro numa edição assinada pelo autor Afonso Henriques de Lima Barreto. O principal aspecto abordado no livro é a questão do nacionalismo, mas também reflete sobre o abismo entre os idealistas e os que se preocupam somente com os próprios interesses. A narrativa é leve e chega a acenar para a comicidade, sem nunca perder a veia crítica. O conteúdo ganha características de tensão quando Barreto reflete sobre a loucura e, mais adiante, critica duramente o positivismo e o então presidente Floriano Peixoto, que governou entre 1891 e 1894.
Brasileiro extremamente nacionalista, o personagem Policarpo tem sua história dividida em três partes: a primeira se desenrola no Rio de Janeiro, logo após a Proclamação da República no Brasil. Em busca de saídas políticas, econômicas e culturais para o país, ele dedica boa parte de seu tempo aos livros e vira objeto de crítica por parte da vizinhança. Os narizes ficam ainda mais torcidos quando Policarpo decide aprender a tocar violão – instrumento mal visto pela burguesia carioca da época – por considerá-lo um símbolo do espírito popular brasileiro.O apaixonado Quaresma também chega a sugerir à Assembléia Legislativa republicana que adote o tupi como língua oficial e acaba virando motivo de piada na imprensa e entre os colegas de repartição.
Na segunda parte, o autor analisa os problemas enfrentados pela população rural do Brasil, com Policarpo envolvido em uma série de situações conflitantes. Na última e mais tensa seqüência da obra original, Lima Barreto narra as peregrinações do personagem pela então capital federal durante a Revolta da Armada e acaba por mostrar a sua derradeira desilusão. Nesse momento, o autor faz uma crítica feroz aos positivistas que apoiavam a Primeira República. Lima Barreto, aliás, é apontado como o crítico mais contundente do período da República Velha no Brasil. Rompeu com o nacionalismo ufanista e desnudou um esquema de poder que mantinha os privilégios dos militares e das abastadas famílias aristocráticas. A história do seu formidável personagem Policarpo também já foi contada no cinema. Em 1998, estreou no país o filme nacional Policarpo Quaresma, Herói do Brasil, com roteiro de Alcione Araújo, direção de Paulo Thiago e o ator Paulo José no papel-título.