Marcelo Ferraz fala sobre projeto na Vila Nova Esperança

Publicado em: 03/06/2008 - 11h29min

Não é a primeira vez que o mineiro Marcelo Ferraz, 53, elabora um projeto para Salvador. A concepção do Palacete das Artes, que integra arquitetura moderna a uma edificação histórica, é dele. Em 1987, criou com a arquiteta Lina Bo Bardi um projeto de revitalização do Centro Histórico que não saiu do papel. Agora, propõe um modelo de revitalização para a Rocinha do Pelourinho, que inclui os moradores, ao invés de removê-los da paisagem.

Marcelo é cauteloso, mas objetivo. Não parece heresia quando diz que nem o tombamento garante a preservação de prédio históricos.

A revitalização do Pelourinho se mostrou ineficaz. Onde o senhor acha que nós erramos? Mais do que apontar erros, é importante mostrar direções, encontrar saídas. O privilégio total da atividade turística no Centro Histórico já se mostrou inviável em outros lugares do mundo. A cidade tem que ser boa para o cidadão e para aquele que mora nela. Aí, sim, ela vai ser boa para o visitante. Acho que houve muita decisão tomada de maneira avassaladora. "Tudo isso vai ser uma disneylândia histórica". Não se pode tratar uma cidade dessa maneira. Uma cidade não se amolda ao que nós queremos, ou ao que os administradores querem. Ela se amolda em função da comunidade e dos moradores. Faltou um diálogo com a comunidade, que em grande parte foi embora do Centro Histórico. Nem com lei, nem com grandes projetos, você faz a cidade. Você faz a cidade a partir da vida que existe nela.

O senhor já tem uma experiência de trabalho na Bahia. O que, dessa experiência, será usado na Rocinha? A gente tem uma experiência com a Lina Bardi nos anos de 86 a 90, quando a gente fez um trabalho na Ladeira da Misericórdia. Ela foi importante porque lidamos com o tecido histórico em abandono e com a necessidade da inclusão social. Fizemos um levantamento socioeconômico, conhecemos as famílias e as habilidades das pessoas. Isso tudo deve ser levado em consideração. Essa foi a abordagem que a gente teve anos atrás e é a mesma em que a gente ainda acredita.

Na década de 80, o senhor e a Lina Bo Bardi fizeram um projeto de revitalização do Centro Histórico que não foi executado. O trabalho atual é a oportunidade de vê-lo ir à frente de alguma maneira? É claro que aquela experiência embasa muito essa atual, em como intervir no patrimônio histórico, mas estamos em 2008, então temos que intervir de uma maneira contemporânea. Aquele projeto não deu certo por uma questão política. O conceito desenvolvido e que deveria ser propagado para todo o Centro Histórico foi jogado no lixo. A gente vive desperdiçando. Darcy Ribeiro já dizia que o Brasil queimou índios e negros; e a gente continua queimando gente que gasta horas num transporte público para chegar ao seu trabalho e à sua casa de volta. É como se isso não custasse nada. A arquitetura deveria estar sempre em busca de um trabalho que traga conforto para a vida urbana. Não interessa se o projeto é assim ou assado. O que interessa é se ele é útil. Se ele servir e for útil, vai ser esteticamente bom e belo.

Em que medida os moradores ajudaram a pensar o projeto e quais demandas foram percebidas pelo senhor? Os moradores da Rocinha foram superimportantes à medida que abriram os seus espaços e mostraram quão indignas é a maneira de viver lá. Falta tudo praticamente. Eles colocaram várias demandas práticas de espaços. Eles querem ter a casa digna, mas querem também um espaccedil;o para continuar com a atividade de confecção de tambores, uma cozinhaescola, uma biblioteca. O papel do arquiteto é descobrir o que o outro quer. Nós temos que entrar, observar e, muitas vezes, descobrir coisas que não estão explicitadas pela comunidade. A cidade precisa ser completa para honrar o nome que carrega. Afinal, ela é o ponto alto da humanidade. Ela tem que ter parques, calçada decente, abrigo de chuva, rua, árvores, bancos... isso é a cidade, é o espaço para convivência. Tudo isso a gente está tentando levar para o microcosmo da Rocinha, que é um pedaço de cidade.

O que vai ser aproveitado na estrutura original da Rocinha? Logo de cara, você vê que ali tem que continuar sendo verde. Mais do que está hoje. Precisamos repor essa paisagem que foi agredida. As muralhas de contenção que estão ali escondidas, pouca gente sabe, são talvez uma obra de importância histórica maior que a de muitos casarões do centro. É um projeto para revelar isso, para dizer: "Olha, muita gente trabalhou lá atrás; olha a obra feita por engenheiros e escravos, que carregaram pedras e fizeram essas muralhas fantásticas".

Como uma área semelhante à do Pelourinho pode ser viável para os seus habitantes e, ainda assim, aproveitar o seu potencial turístico? Muitas cidades que resolveram essa equação pagaram um preço alto por terem encarado os seus centros históricos somente como pontos turísticos. Acabaram transformando esses lugares em centros que só funcionam durante um período e, no restante do tempo, ficam mortos. Quem vem de fora quer entrar na vida da cidade sem estardalhaço. Quando a cidade funciona normalmente, com as pessoas vivendo nela, ela tem interesse turístico.

Qual o grau de influência de Lina Bo Bardi em seu trabalho? Trabalhar com a Lina Bo Bardi foi mais uma experiência de vida do que uma experiência formal com arquitetura. Ela era muito inteligente e reflexiva e me legou a capacidade de não perder a indignação com as injustiças sociais. Estou sempre querendo consertar as coisas, como uma porta torta, uma calçada esburacada. Essas coisas me incomodam, como me incomoda ver uma pessoa vivendo mal. Isso talvez seja um legado da Lina nesses 15 anos de convivência. Se não for para servir, seria melhor desistir da profissão. A arquitetura é conseqüência.

O que o senhor pensa sobre esse movimento de pessoas que se aquartelam em condomínios com tudo dentro? Essas pessoas que se aquartelam têm que entender que estão andando na contramão da história. Elas podem se proteger com grades, com carros blindados, mas estão caminhando para a falência da cidade. Se não acreditam na cidade, elas não precisam morar nela. Poderiam ir morar no mato. Essa é uma forma de usar a arquitetura como forma de segregar. As pessoas têm que encarar a cidade como um espaço seguro. É importante que uma pessoa endinheirada freqüente o Centro Histórico, assim como uma pessoa pobre.

A cidade tem sido pensada para grandes empreendimentos imobiliários. Mas não vemos um investimento em espaços coletivos. Como o senhor vê isso? Esses empreendimentos são pensados em função do medo da cidade, como se ela fosse um campo de guerra. O engraçado é que essas pessoas viajam ao exterior e ficam admirando o fato de as pessoas andarem nas ruas com segurança, em calçadas bem varridas. É preciso que as pessoas pensem: "Por que não temos isso aqui?" Pensando assim, você começa a pensar a cidade do ponto de vista coletivo.

Transformar uma cidade em museu não é uma forma de matá-la? Os museus não deveriam ser coisas mortas. Muitos não são. Existe o patrimônio histórico, aquilo que recebeu o carimbo da Unesco, do Ipac ou do Iphan. Mas a cidade toda é patrimônio. No caso do patrimônio histórico, há que se ter mais cuidado, porque aquilo representa o documento de uma época. Mas um documento congelado no tempo perde seu sentido de existir.

O que é importante na criação de um projeto, como o do museu Rodin, para que não se caia numa descaracterização total nem numa necrofilia reverente? Tínhamos que transformar um palacete residencial num museu. Não podíamos deixar as paredes de cada quarto, de cada sala, pois era preciso um espaço amplo. Uma escada que suportava o peso de 20 pessoas, que passavam ali por dia, agora precisa suportar o peso de 500 pessoas. Então, optamos por deixar visíveis as divisões entre os cômodos. É uma forma de dar uma nova utilidade ao local e, ainda assim, preservar a história das pessoas que moraram ali.

É válido buscar, numa casa cheia de histórias, a sua pintura original, como se o que vem primeiro fosse o mais importante naquela estrutura? De forma alguma. Acho que a questão da antiguidade não é valor para distinguir nada. Como se a humanidade nunca tivesse feito um monte de porcarias. Eu digo que nem o tombamento assegura a um imóvel a necessidade da sua permanência. Se você tem uma coisa que é tombada, mas tem um projeto em comum acordo com a sociedade que vai ser mais importante, por que não? As pessoas, as necessidades, os modos de vida mudam. Em projetos de restauração, a gente vai procurar a cor original, mas, muitas vezes, ela era um horror.

Vemos esses prédios enormes, espelhados, com colunas jônicas, metidos a besta, e com nomes de maisonno meio. Criamos um jeito feio e brega de morar? Existe um jejum de cultura arquitetônica no Brasil. Não é que você tenha que conhecer os nomes dos arquitetos. Mas a falta dessa cultura é a causa das aberrações dos prédios com colunas gregas que não servem para nada, e do fato de as periferias serem um amontoado de casas. Acho que, do primário até a universidade, temos que saber como a cidade é feita e pensar sobre isso.

O que o senhor mandaria demolir? Eu mandaria demolir aquela igreja [no momento, passávamos ao lado da Catedral da Fé]. Ela é completamente fora de propósito, na escala e na maneira como foi construída. É um cenário, e a cidade não pode viver de cenários. Talvez, seja um tanto leviano dizer isso, porque é um caso que temos na nossa frente, mas mandaria demolir muitos viadutos. Temos que abrir clareiras na cidade. São Paulo é tão densa que só conseguiremos melhorar isso abrindo clareiras, fazendo praças. Temos que demolir muita coisa para tornar a cidade um lugar melhor.
Secult

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