Publicado em: 29/04/2008 - 10h09min
O Sodré e as ladeiras vizinhas, que correspondem à chamada “adjacências do Largo Dois de Julho”, vão mudar. Em cinco anos, as casas mal conservadas ou abandonadas irão compor um centro de lazer e comércio especialmente concebido para baianos e turistas freqüentarem. A base para esse prognóstico calculado por empresários é a ação silenciosa, que eles mesmos vêm tendo, de comprar imóveis.
Até agora, os investidores que se propõem a provocar uma revitalização imediata e radical adquiriram mais de 45 casarões, casas e ruínas de séculos atrás e dizem que vão restaurá-los. Outros 20 estão na mesa de negociação. Ao todo, eles já desembolsaram cerca de R$ 8 milhões para adquirir imóveis que, em sua maioria, vinham sofrendo acelerado processo de deterioração. Outros grupos de compradores aguardam que o processo se defina para também atuar.
A poligonal traçada pelos próprios investidores delimita um grupo de ruas e becos entre a Praça Castro Alves e a Ladeira dos Aflitos, entre a Avenida Contorno e a Carlos Gomes. Envolve, também, edificações na primeira rua da cidade, a Conceição, que antes dos aterros da Cidade Baixa ficava na beira do mar.
Também não estão descartadas as unidades que aparecerem em condições de serem vendidas, em baixo dos arcos da ladeira de mesmo nome, onde antigos ferreiros como Zé Adário, o Zé Diabo, desenvolvem ofícios praticamente em extinção.
O foco da reocupação desse trecho do Centro Antigo de Salvador é o cotovelo da Rua Areal de Cima, onde o hotel de luxo Txai, com 40 apartamentos, começará a ser construído em setembro para ser inaugurado em dois anos. Somente ele significará um investimento em torno de R$ 20 milhões.
Do mesmo grupo que se instalou em Itacaré, município costeiro do sul da Bahia, e que se tornou destino de celebridades, o Txai Salvador terá como diferencial a exploração da vista e da brisa da Baía de Todos os Santos em uma adaptação especialmente direcionada para turistas com alto poder de compra. Em Itacaré, a diária pode chegar a R$ 1.760.
“Eu acho que Salvador tem porte para ter um hotel de charme como esse. E a gente gosta exatamente disso. Temos um público que gosta muito de área tombada, em função da arquitetura e da cultura. Dá mais trabalho, demora para aprovar o projeto (no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional -Iphan), mas você ganha condições de ter uma coisa bem diferenciada”, justifica um dos proprietários paulistas, Nelson Morais, ex-corretor da bolsa de valores.
Até agora, a movimentação de compra dos imóveis na mão de proprietários como a Arquidiocese de Salvador (que vendeu as casinhas vizinhas ao Museu de Arte Sacra, com moradores dentro), a Santa Casa da Misericórdia e particulares chegou a um valor que dificilmente poderia ser alcançado pelas cifras das desapropriações que o governo estadual vem fazendo para instalar o seu programa Rememorar.
As próprias casas centrais do Txai teriam sido alvo deste projeto tocado pela Companhia de Desenvolvimento Urbano (Conder) caso não tivessem sido poupadas em função da promessa do antigo proprietário Manfred Peters, de que empreenderia nelas. Ele procurava parceiros para investir e acabou vendendo as unidades ao Txai.
No outro lado do balcão há negociantes de São Paulo, Rio de Janeiro, estrangeiros e interessados locais, motivados pelo empreendedorismo de Armando Correa Ribeiro, que tem feito um trabalho de convencimento entre esses círculos. Com base no sucesso que alcançou com o restaurante Trapiche Adelaide, instalado no armazém pertencente a sua família desde 1860, e em outras iniciativas, os investidores apostam na possibilidade de lucro a partir do Sodré.
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