Cultura circulando por toda a Bahia

Publicado em: 02/04/2008 - 19h16min

Localizado na Bacia do Rio Corrente, no extremo oeste baiano, o município de Canápolis foi surpreendido por uma ação inédita. Em fevereiro deste ano, recebeu pela primeira vez uma peça de teatro. O espetáculo O Grande Passeio, aberto ao público, levou 200 pessoas ao Auditório Municipal da cidade, que teve sua lotação máxima atingida.

“A receptividade da população foi ótima. Nas aulas gratuitas de teatro, que oferecemos um dia antes da apresentação, ultrapassamos o número de inscritos. Tivemos de ampliar de 20 para 35 vagas, nos surpreendemos”, comenta o ator Ricardo Fagundes, que encena a peça.  

De Canápolis, a montagem seguiu viagem para outro pequeno município baiano, Santana. Lá, foi apresentada no auditório do Prédio Monsenhor Filho, totalmente readaptado para recebê-la. “A cidade não tem infra-estrutura adequada para espetáculos, em compensação, tem sede de cultura, sede de acesso a linguagens artísticas e precisa de facilitadores culturais que se lembrem dela”, enfatiza Fagundes.

Além de Santana, outros municípios do interior da Bahia que também não possuem espaços voltados à arte estão sendo contemplados com montagens de espetáculos culturais. É o caso de Lamarão, na região do Sisal, que conheceu As Aventuras de Lampiaço e Beija-flor, comédia teatral baseada na obra-prima da literatura, D. Quixote; e de Poções, situado no centro-sul do estado, que utilizou das instalações de seu Clube Recreativo para apresentar Guilda – que aborda temas como sexualidade, estética e transformismo.

Esta mesma montagem foi apresentada, em Itambé, com uma emoção a mais. “Nasci em Itambé e pude retornar à minha cidade 20 anos depois, pela primeira vez como artista, para mostrar o meu trabalho. Fiquei muito feliz”, conta Marcelo Souza, integrante do coletivo Cruéis Tentadores, elenco da montagem. Sobre os assuntos tratados na peça, o ator afirma: “Nenhuma obra é direcionada apenas a grandes metrópoles. Considero importante tratar de tais assuntos em todos os lugares. Na verdade, quando montei o espetáculo, pensei mesmo em circular pelas cidades pequenas, estou satisfeito”.

Além de peças teatrais, outras linguagens estão circulando pelo interior baiano, a preços populares. O Grupo Dimenti, por exemplo, levou duas montagens de dança para as cidades de Porto Seguro e Itabuna. Os dançarinos apresentaram as coreografias Tombé, que reflete sobre os clichês da dança, e O Poste, A Mulher e O Bambu que, juntamente com o vídeo-dança Sensações Contrárias, investiga a dramaturgia do escritor Nelson Rodrigues.

“Circular pelo interior com trabalhos artísticos é muito interessante pela troca de referências diretas com artistas e comunidades de outras praças e, também, porque em decorrência do encontro com um lugar diferente é possível conhecer melhor as especificidades do trabalho, em contraste com a cidade visitada e seus aspectos culturais”, comenta Ellen Mello, integrante do Dimenti. Além da apresentação de montagens, o Grupo realizou, ainda, debates sobre o tema Contatos Imediatos. As considerações levantadas nas discussões, segundo Ellen, repercutiram diretamente no olhar do grupo sobre suas obras, diante das constantes revisitações.

A música também está girando pela Bahia

As cidades de Alagoinhas, Juazeiro, Santo Amaro, além da capital baiana, foram palco do Terreiro Circular. O projeto ministrou uma série de oficinas multimídias, ministradas por um coletivo de músicos, que reuniu 180 pessoas no total, ultrapassando o número de vagas disponíveis. De acordo com Vince de Mira, um dos músicos envolvidos na iniciativa, as atividades atingiram seus objetivos. “Estimularam, através do conhecimento do atual panorama da música,  os profissionais e iniciantes da área  a se inserirem no mercado formal, a utilizarem novas ferramentas para a criação musical e a pensarem esteticamente no seu trabalho através da interação da música com outras linguagens”.


Como resultado das oficinas, os participantes apresentaram shows, com um público que superou a marca de 700 pessoas (uma média de 140 por apresentação). “Ações como essa contribuem para fortalecer a música independente na Bahia, através de iniciativas coletivas, além de mobilizar os músicos e técnicos do interior do estado, subúrbio e periferia de Salvador a se envolverem no processo, otimizando suas habilidades para construir pontes de acesso a outros profissionais da área, em relações de intercâmbio”, avalia Vince.

Tudo isso, graças ao Circuito Cultural Bahia – realizado pela Fundação Cultural do Estado, entidade vinculada à Secretaria de Cultura, que visa à interiorização e democratização da cultura, com a difusão dos projetos vencedores dos editais de circulação da Fundação. No total, são dez espetáculos de dança, 12 de teatro, três oficinas de música e nove exposições, ou seja, 34 produções que abrangem 23 cidades da Bahia, dispostas em 15 Territórios de Identidade.

A programação se estende até junho de 2008 e oferece, a cada visita, workshops gratuitos ministrados pelos proponentes, com o objetivo de proporcionar um intercâmbio de experiências com a comunidade de cada cidade escolhida.
Secult

Tags:


Salvador, Canápolis, Alagoinhas, Juazeiro, Santo Amaro

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