Publicado em: 20/03/2008 - 12h47min
Articulado com o Ministério da Cultura (MinC) e patrocínio da Petrobras, a Fundação Gregório de Mattos (FGM) realizou na quarta-feira (dia 19), no auditório do Hotel Sol Marina, um seminário de estudos e pesquisa sobre capoeira intitulado "Capoeira Viva 2007". O evento reuniu especialistas e pesquisadores de todas as regiões do país que participaram de duas mesas-redondas - "Capoeira, educação e comunicação" e "Capoeira, História e Cultura". Durante o seminário foi lançado o livro "A política da capoeiragem", de Luiz Augusto Leal.
O seminário é uma das etapas do programa Capoeira Viva, do Ministério da Cultura, que vai fomentar, com recursos de mais de R$1 milhão, projetos de todo Brasil ligados com a capoeira. Segundo o gestor da Secretaria de Políticas Públicas do Ministério da Cultura, Fábio Kobol, o programa Capoeira Viva significa uma ação do Estado brasileiro de reconhecimento e apoio à capoeira como uma política cultural.
O MinC lançou o segundo edital Capoeira Viva em âmbito nacional, englobando prêmios para fomento de atividades, aprendizagem e projetos socioeducativos, pesquisa e mídia com relação à capoeira. O edital trata também de outras atividades, como publicações em geral e sites. "O primeiro edital destinou R$ 900 mil a 57 projetos. Dessa vez, já aumentamos a possibilidade de fomento para R$ 1,2 milhão em prêmios, quase 30% a mais", relatou Kobol, alertando que os processos estão em fase de seleção, "mas acreditamos que chegaremos a 100 projetos, que vão receber recursos nas atividades socioeducativas (pedagógicas), consolidação e abertura de acervos dos mestres escritos e eletrônicos, estudos e pesquisas de produtos midiáticos (CD, vídeos, animação, DVD, interface com internet, blogs e outros)".
Kobol destacou ainda que, a partir da gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura, a capoeira passou a ser considerada como uma das mais importantes expressões da cultura brasileira. O gestor da Secretaria de Políticas Públicas do MinC destacou que o papel do Estado com relação à capoeira se desdobra no sentido do rompimento da lógica exclusiva do mercado cultural para apoiar uma expressão genuína da cultura brasileira, inclusive a reconhecendo como patrimônio imaterial do povo brasileiro.
O presidente da Fundação Gregório de Mattos, Paulo Costa Lima, frisou que a capoeira incorpora visões de mundo contrastantes dentro dela. Ele esclarece que, por um lado, a capoeira traz um discurso de resistência que pega fatores tradicionais transformando-os em modo de vida de reação ao discurso colonizador ligado à escravidão. "A capoeira nasce como um discurso cultural que desenvolveu uma terapêutica de libertação do corpo", falou Costa Lima, acrescentando que a capoeira conseguiu criar sua própria rede alternativa com projeção internacional.
Ressaltou que Salvador é a Meca da capoeira e isso pode ser potencializado tanto para a própria atividade, como para a educação, turismo e outras áreas. "Então, são ações conjuntas da Prefeitura, governo do Estado e Ministério da Cultura no caminho de reconciliar essas duas partes da capoeira: o discurso tradicional de valorização de cultura e o seu papel hoje no mundo. Por isso, uma das modalidades do edital é capoeira e cultura digital, inclusive de jogos eletrônicos, coisas que conectam a capoeira com o mundo digital", explicou.
O presidente da FGM lembrou que, em 2005, a gestão municipal homenageou a capoeira no aniversário da cidade com um cortejo de 500 capoeiristas com direito a roda de grandes mestres. "Isso coincidiu com o anúncio do Ministério da Cultura do primeiro edital de Pontos de Capoeira para a Bahia. Agora, esse novo edital revela uma rede com 1.282 projetos. Esse edital torna Salvador o centro da capoeiragem. Aqui estão dez doutores em capoeira participando do processo", disse.
O Mestre Bola Sete, presidente do Conselho de Mestres da Associação Baiana de Capoeira Angola, ex-aluno do Mestre Pastinha, destacou que toda iniciativa desse porte é muito útil para a capoeira Angola e para todas as entidades que levam a capoeira a sério na Bahia e no Brasil. Ele salientou que a capoeira está passando por um momento de transição, da perseguição histórica ao reconhecimento pelos poderes públicos no Brasil e projeção em nível internacional, o que tem aspecto positivo pela expansão da atividade mundo afora e negativo, por conta de atuação de grupos e mestres despreparados e sem nenhuma condição de dar aula, que acabam passando ao exterior uma imagem diferente e deturpada da capoeira. "A parte positiva supera a negativa, pois vai chegar o dia em que esses mestres vão cair por si próprios, pois quem tem o conhecimento é quem vai sobreviver e mostrar o que é a verdadeira capoeira", destacou.
Outro Mestre da Capoeira Angola, Virgilio Ferreira, conhecido como "Espinho Remoso", titular da Associação de Capoeira Angola 1º de Maio, falou que os capoeiristas esperavam, há décadas, por esse tipo de iniciativa de reconhecimento dos poderes públicos. Ele salientou que os capoeiristas nasciam, viviam e morriam sem ter nada na vida e que, na atualidade, já podem contar com iniciativas positivas para aliviar o sofrimento. "Capoeira é luta, dança, filosofia e expressão corporal. Fiz muito capoeira como esporte, mas nunca interessado em ganhar dinheiro. Tenho muitos alunos formados que são mestres hoje e estão pelo mundo e nunca cobrei nada. Ensinei capoeira por gosto e por prazer", revelou o mestre, que atuou na vida profissional como serralheiro.
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