Como entender o por quê "A fila anda"
Publicado em: 13/02/2008 - 14h34min
Constantemente tenho ouvido comentários sobre este particular aspecto das relações contemporâneas que é a idéia de que “a fila anda”. Para quem não está familiarizado com o termo, “a fila anda” é oriunda da idéia de que se a pessoa a qual está se relacionando com você (sendo por uma noite, um beijo ou até em relações de namoro e casamento) se não retribuir suas expectativas, ou não realizar o esperado, a fila anda para o próximo vir a seu dispor.
Interessante, e até cômico, são as derivações do tema: “a fila anda com catraca seletiva”, “a fila anda mais você é VIP”, “não tropeça que a fila anda”, “a fila não anda, voa”. Inúmeras são as pessoas adeptas a este mantra cultural que se propaga à largas passadas. Afinal, quem quer ser o mais um da fila?
A ingenuidade passa longe da cultura de pessoas que controlam a fila. A incompetência e os erros não são tolerados, busca-se sempre a primazia. São máquinas extraordinárias na valorização de si e em não se deixar abalar.
Inevitável é não corresponder “a fila anda” com um supermercado ou uma loja. Sendo assim, a pessoa vai a loja, pega o pacote, ou o pedaço de carne que lhe convém e vai pra fila. Na catraca teria, portanto, o responsável que deixaria você levar o produto ou não, mas claro, sem esquecer de que não pode haver falhas neste processo, as falhas não são admissíveis.
Chegamos então a um ponto interessante, seria então a cidade um grande supermercado, tendo as pessoas como pedaços de carnes de que se pega na estante e fica esperando para ver se o seu valor é suficiente para poder consumir aquele objeto?
O que não se fala na cultura do “a fila anda”, é do medo de ser mais um que roda na catraca. O medo (que não pode ser aceito), então impulsiona a fazer a roda seletiva girar, afinal, antes que alguém me despeje, eu o farei primeiro. Não podemos assumir o risco de sermos o mais um, temos que ser sempre o melhor pedaço de carne muito bem moldado pelas academias e pelas estantes de silicones e plásticas. A liberdade e bem estar é então vendidas em supermercados de “fique com a cara da estrela que você admira”.
Claro que é agradável ir a uma festa e aproveitar da bolsa recheada de prazer denominada de “corpo humano”. O corpo exala prazer e desejo por todos os poros. Podemos sentir no tocar dos lábios, em uma boa palavra ouvida, no contato com os corpos, e claro, no ato sexual. O corpo, portanto, seria um cosmo pronto a explodir de paixão, tesão e desejo, e não seria justo negar ou rejeitar esta informação (temos que agradecer aos movimentos feministas, à pílula contraceptiva e a todos outros movimentos de liberação que contribuíram para a valorização do prazer e da satisfação). A norma torna-se consumir este produto tão agradável.
A grande vantagem do “a fila anda” é que se pode consumir quantos pedaços de carne lhe convir. Não podemos perder muito tempo no mesmo objeto, ele enjoa rápido, e quem sabe se o próximo não pode ser muito mais atraente do que o que estou agora? Assim, a roda gira no grande supermercado de carne e prazer.
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Vinícius Farani (CRP 03/04352) é psicólogo, mestrando em Família na sociedade Contemporânea, Especialista em psicologia Analítica pela Associação Paulista de Psicologia Junguiana, membro diretor da Associação Baiana de Estudos Junguianos.
Por: Vinícius Farani López