Confira: Entrevista com Heródoto Barbeiro

Publicado em: 13/01/2008 - 01h15min

1. Como você começou no jornalismo?

Eu comecei trabalhando na TV Gazeta, apresentando um programa semanal, chamado "Show de Ensino" que era um programa que misturava notícias com educação. Eu não tinha pensado em ser jornalista. Nunca tinha passado pela minha cabeça ser jornalista, eu era professor de história. Comecei a trabalhar nesse programa e depois a trabalhar na jovem Pan, como comentarista de política internacional. Na época precisava de diploma então eu fiz vestibular na Casper Libero e comecei a fazer o curso de jornalismo. Mas ainda assim nunca me passou pela cabeça parar de dar aulas e depois de 5 a 6 anos eu parei de dar aulas e virei jornalista.

2.Qual sua concepção sobre educação na época em que você dava aulas e a educação que temos hoje?

Na época. Eu pequei a época do regime Militar como professor, era uma época difícil. Não era só uma censura nos veículos de comunicação, era uma censura no ato de dar aula, principalmente aula de historia. Então na época você tenta burlar essa censura existente para poder desenvolver uma consciência crítica na cabeça das pessoas. Eu acho que a educação não mudou, uma das funções da educação é criar essa consciência critica nas pessoas. Só que hoje você tem um regime de liberdade maior no país e você não precisa se preocupar tanto quanto você se preocupava no passado.

3.Como você concilia trabalhar em 4 veículos (TV, Rádio, On-line, Impresso) diferenciados de comunicação?

Bom, eu concilio porque na verdade eu faço a mesma coisa, se fossem coisas diferentes não daria para fazer, mas como eu mexo com notícia, essas notícias as quais eu mexo são veiculadas pelo rádio, pela Tv, pelo Jornal, pela internet e pela revista imprensa, onde eu tenho um artigo mensal em que eu falo sobre jornalismo no rádio.

4.Mas as técnicas nos veículos são diferentes, o modo como você trata um texto, por exemplo. Como você consegue fazer essa diferença. Na Tv o texto é mais conciso e no rádio você tem maior liberdade.

É realmente o texto é um pouco diferente, a postura também é um pouco diferente, mas isso é muito pouco, muito fácil, muito simples. Porque, na verdade o que importa não é veiculo, o que importa é o jornalismo. É necessário tomar cuidado para a gente não trocar o principal pelo secundário e o secundário pelo principal. O que é o principal? O principal é o ato de fazer jornalismo, de você avaliar corretamente as coisas, você entende a condição social do jornalismo de entender os limites éticos. Isso é fundamental, o resto é secundário. Televisão você tem que enxugar um pouco mais o texto, mas é coisa simples, o jornal ser mais analítico, mas também é algo simples. É só tomar cuidado para não fazer essa mistura de trocar o principal pelo secundário e eu digo isso, porque a impressão que eu tenho em algumas escolas é que eles fazem essa troca, então em vez de ensinarem os estudantes muito mais as técnicas no jornalismo, as técnicas dos veículos do que as essenciais no jornalismo. Não sei se são todas, mas tenho percebido que algumas trocam o principal pelo secundário.

5.Qual veículo mais te agrada?

Depende do que você dizer/quiser o que mais agrada é aquele que você sabe usar para atingir a pessoa naquele exato momento. Vou citar um ex. Se a pessoa pode sentar em casa e ver o programa eu acho, o que mais agrada é a televisão obviamente. Se o cara está no carro o que mais agrada será o rádio porque eu sei que ele não pode ver televisão. O que mais agrada é aquele que você usa as características dele para poder atingir as pessoas.

6.Você respira notícia. Elas te fazem um cidadão mais consciente ou mais descrente de um Brasil melhor?

Eu acho que o consciente não se contrapõe ao descrente são coisas diferentes. Eu sou uma pessoa otimista em relação ao país, eu acho que é através do noticiário...

7. Você acha que o Brasil tem jeito?

Eu acho que tem jeito porque quanto mais notícia, mais consciência mais formação de massa crítica no Brasil. Então hoje você já não engana mais as pessoas como você enganavam no passado com tanta facilidade. Por que? Porque você tem a liberdade de imprensa, você tem liberdade de expressão que as pessoas pensam melhor e as pessoas se deixam enganar menos e cobram mais, então eu acho que a imprensa tem essa função também de criar essa consciência crítica, o que aumenta a cidadania e faz com que as pessoas se coloquem melhor na sociedade.

8.Sobre a liberdade de imprensa nós tínhamos comentado sobre os veículos. Há pouco tempo o programa do Gugu que foi até suspenso. O que você acha da censura?

Eu escrevi no Diário na semana passada na internet, O Diário de São Paulo, onde vocês podem ver. O que faz eu não gostar do programa do Gugu, dificilmente assisto o programa do Gugu. Acho que foi uma patifaria deles terem feito aquela simulação, acho que eles teriam que ser punidos por terem feito a apologia de crime. Mas não acho que o programa deveria te sido tirado do ar. Para mim tirar um programa do ar sem saber o conteúdo, é censura, então, para mim o que aconteceu com o Gugu foi um tapa de censura prévia.

Você pode inclusive move um processo para acabar com a concessão do canal.

9.Seus livros estão direcionados a veículos específicos de comunicação (Manual do Telejornalismo e Radiojornalismo) e que tem ajudado a muitos. Fale um pouco deles e se há algum novo em mente.

Eu tenho, além de dois manuais de Telejornalismo e Radialismo, eu tenho um manual de mídia treinee. É uma área nova para jornalistas. Publicada pela editora futura. Publiquei ano passado outro livro chamado "Liberdade de Expressão" juntamente com o Carlos Cony e o Xexeu. Mês que vem vai sair um livro chamado "Falar para Liderar" e é também na área de mídia treinee, meu segundo livro nessa área. No final desse ano pretendo fazer junto com o Paulo Rodolfo que é meu co-autor a revista do manual de telejornalismo e o ano que vem eu quero mexer com pelo menos três livros que sairá no final do outro ano que eu estou escrevendo, chamado "Budistas não guardam fotos", que é um ensaio sobre o budismo. E no ano que vem só projeto eu quero escrever um livro para jornalistas, chamado: Liderança em Jornalismo, como é que uma pessoa se torna líder em uma redação e quero escrever uns três livros de mídia treinee, chamado "Você e o Jornalista" mas por enquanto esses só são projetos não tenho nenhuma linha escrita sobre esses dois últimos.

10. E de história você pretende fazer mais algum?

Livro de história eu lancei um paradidático chamado "Os Ambiciosos" e ano que vem eu tenho mais 4 ou 5 para publicar aí, que eu escrevi no passado.

11.Como você arruma tempo para trabalhar tanto

Bom, primeiro você tem que dividir bem o tempo, administrar bem o tempo como eu levanto muito cedo e durmo tarde (risos) só sobra mesmo o dia para fazer coisas, então eu sento e escrevo.

12.Voltando ao budismo. Você encontra nele a sensibilidade ausente no jornalismo de hoje?

Eu acho que o budismo te dá um es-ta-bi-lidade psicológica, essencial no jornalismo, o jornalista tem que ser um cara psicologicamente estável. Ele não pode brigar com a notícia, não pode brigar com o entrevistado, não pode agredir o entrevistado. Então a meditação budista dá essa tranqüilidade e equilíbrio necessário para o jornalista. Não gosto de falar muito disso porque as pessoas acham que é uma questão religiosa mas já que você me perguntou. Eu acho que o budismo trás essa contribuição.

13.Com seu vasto currículo, ainda existe algum sonho profissional a ser alcançado?

Já fui repórter, já fui editor de texto, já fui editor de reportagem, já fiz links, já fiz comentários de economia, já fiz comentários internacional. Coisas que qualquer jornalista faz. Com um pouco de estudo qualquer jornalista faz. Já dei aulas, já fui advogado. Se quiser mais detalhes tem no herodoto.Com.br que é meu site na internet e vocês acham lá.

14.Mas tem alguma que você não fez ainda que tem vontade de fazer?

Não, eu acho que eu nem faço idéia, como eu disse, eu nem pensava em ser jornalista. Eu nunca fiz planos de carreira, eu vou vivendo conforme as coisas vão acontecendo.

15.Qual o diferencial que um foca deve ter para se sobressair no mercado de trabalho?

Eu acho que primeiro a pessoa precisa entender de jornalismo. Precisa saber fazer jornalismo. Precisa estudar jornalismo, acho que isso é fundamental. Saber computação é importante? Não muito. Eu volto aquela questão que eu disse. O importante é saber fazer jornalismo. Se você sabe fazer jornalismo as pessoas vão ouvir o que você tem a dizer na hora de procurar emprego. Se você não sabe o que é, não adianta mostrar currículo, estudei aqui, fiz curso x,y, porque o mercado competitivo o jeito que está, você vai ser apenas mais um no meio de tantas outras pessoas.

16. Um professor de História é um bom jornalista?

Não necessariamente. Mas a historia ajuda muito no jornalismo. Jornalistas precisam ler história, jornalistas precisam saber raciocinar historicamente e sociologicamente.

17.O que faz do jornalista um bom profissional?

É o seguinte: O jornalismo é uma luta de todo dia. É uma luta diária que você tem que acompanhar todo dia tem que estudar todos os dias tem que se interar todos dia. É uma coisa contínua, não dar para ser jornalista sem estar lendo constantemente, vendo as coisas que acontecem, lendo jornal, ouvindo rádio. Ninguém deve se informar só por um veículo de comunicação.

18.O jornalista deve ser cético para ser imparcial?

Primeiro eu não acredito que exista uma imparcialidade, para mim não existe imparcialidade, eu não sou um jornalista imparcial, eu sou um jornalista parcial.

19. Mas os conceitos que aprendemos nas faculdades dizem que temos que ser imparciais.

É, mas eu respeito o conceito de quem defende a imparcialidade, eu não defendo, porque acho que o jornalista está imerso dentro de um contexto social, influenciado por todos os assuntos sociais que atuam sobre todas as pessoas. Então como eu posso ser imparcial! Se eu disser que sou corintiano eu não sou mais imparcial, mas eu posso dizer que sou isento, eu sou jornalista esportivo, torço pelo Corinthians, mas trato o Corinthians com a mesma isenção que eu trato o Palmeiras, O São Paulo, O Santos, etc. Então eu acho que é bom vocês discutirem na escola entre isenção e imparcialidade.

20.Qual o limite de um jornalista. Até que ponto a ética impera?

O limite do jornalista é o limite ético. O jornalista não é um profissional sem limites, é o limite ético, é o respeito ao ser humano, é o respeito à vida. Eu não posso colocar a vida de uma pessoa em risco para fazer uma matéria jornalística.

21. Você está lá na TV Cultura. Qual é a real situação da TV Cultura hoje?

É muito complicada porque há uma. Eu acho que o modelo de gestão da TV Cultura precisa ser repensado, esse modelo atual foi um modelo pensado a 30 e tantos anos atrás , 35 anos atrás. Eu acho que precisa se atualizar. Eu acho que a atualização de modelo/gestão da TV Cultura poderia contribuir para que ela se atualizasse e fosse melhor.


22. Qual a solução para a TV Cultura?

Eu acho que ela se propõe a ser uma TV pública, sendo uma TV pública e tendo independência, ela poderia estar aberta a verbas públicas do governo, a verbas particulares de publicidades e também a outras fontes de verbas. Isso ela teria que diversificar se o seu orçamento para não ficar dependendo de alguma área, porque se ela ficar dependendo do estado ela perde a independência do modelo de gestão.

23.Heródoto: Voltando à ética, você uma vez mencionou uma frase de Gabriel Garcia Marques para exemplificar a ética no jornalismo, ”Todo zumbido acompanha o besouro”. Você não acha que esse zumbido tem se tornado um chiado?

Bem, eu acho que sim, mas a gente não pode generalizar às pessoas e veículos que não se preocupam com isso, agora quem cabe punir essas pessoas é o público, é o cidadão, é o ouvinte, o telespectador e o leitor de jornal.

24.Você acha que o público, o cidadão, o ouvinte, o telespectador tem feito isso?

Bem, não sei se eles fazem, mas se eles não fazem é porque eles gostam do que está sendo feito.

25.Então a mudança vai depender do público?

Ah vai, senão vai haver censura. Por que existem programas de baixaria? Porque as pessoas dão audiência. Se as pessoas não dessem audiência os programas não seriam baixaria. É só mudar de canal.

26. Mas as pessoas não são manipuladas hoje em dia?

A pessoa veja você generalizar quando diz que as pessoas são manipuladas, algumas são outras não são, isso sempre existiu. Agora eu acho que com mais informação, melhor educação, mais cidadania, melhor desenvolvimento cultural, fica mais difícil você manipular as pessoas.

27.Você pode imaginar como será os programas televisivos daqui há 50 anos?

A 50 não, eu posso imaginar daqui há 5 anos. Daqui há 5 anos a TV vai ser um canal de dupla mão de direção, completamente, tudo ocupado em uma único equipamento em casa onde vai estar o computador, a televisão, o rádio a internet, tudo em um aparelho só. Eu acho que vai poder selecionar ali tudo o que você quer ver e o que você não quer ver e acho que você vai pagar cada vez mais pelos programas que você vai querer assistir.

28.Qual o futuro do jornal impresso?

O jornal impresso está caminhando para a internet. Ele vai deixar de ser impresso no papel para se impresso na internet.

29.Você acha que a internet também vai tomar o lugar do rádio?

Eu acho que o rádio vai usar a internet como meio de propagação. A internet não é concorrente do rádio e também não é concorrente da TV. A internet é uma estrada por onde esses veículos de comunicação trafegam. Então eu acho que a hora que estiverem internet móvel no carro, você vai ter cada vez mais o rádio trafegando pela internet.

30.Gostaria que você comentasse sobre o período da ditadura Militar, sobre a ética e a censura existente naquela época.

Sobre a questão da Ditadura Militar quero ressaltar o seguinte: Eu não era jornalista na época, eu era professor de história. Eu não senti a censura a não ser como ouvinte ou como leitor. Uma vez que os jornais eram censurados, uma vez que os programas também eram censurados. Então eu passei pela experiência de trabalhar em uma redação com o censor na redação, como aconteceu no Estadão no Jornal da Tarde.

31.Mesmo como professor era difícil, pois não se podia falar muita coisa.

Foi um período difícil. Eu tive muitos colegas que foram presos, eu mesmo fui chamado muitas vezes para tomar pressa sobre coisas que eu tinha falado em sala de aula.

32.Existia ética?

Ética existia sempre, só que muitas vezes ela está mais expandidas e outras menos expandidas.

33.Você acha que a imprensa no período da Ditadura Militar mudou de certa forma a concepção do jornalismo no Brasil?

Claro, porque o período militar foi um passado em que impediu o desenvolvimento da discussão, do debate do espírito crítico. Então a geração que vem depois sofre com isso obviamente.

34.Isso reflete na liberdade desenfreada que atua nos veículos de hoje tirando o limite e a ética da reportagem?

Não. O que se chama de liberdade é fruto de escassez sociais que acontecem no mundo, quer a gente queira, quer não. Ninguém é capaz de impedir isso. É uma outra época, uma outra mentalidade. O que a Ditadura Militar criou problema, foi no amadurecimento político, nas discussões políticas, foi no amadurecimento político, nas críticas do governo. Criou dificuldades na formação de lideres políticos, mas não na liberdade comportamental. Essa é fruto em que se está vivendo, no processo histórico e na história não se volta atrás.

35.Você tem alguma mensagem aos futuros jornalistas que almejam chegar onde você se encontra?

Quem está nessa área e vive disso tem que aprender a fazer jornalismo tem que ter cultura própria tem que estudar tem que ler, não pode parar de ler, tem que ler sempre tem que identificar o ato de fazer jornalismo, a importância disto, a importância que tem para a sociedade e deixar um pouco de lado as técnicas. Se esmerar e se esforçar mais para um enriquecimento cultural.

36. Você quer dizer que não depende sói da formação acadêmica?

Acho que a formação acadêmica podia te dar uma base mais teórica sobre esta questão do jornalismo existente. Mas você tem que ler por conta própria e também procurar obviamente o mercado para a prática e o esforço pessoal. Dependendo da escola vai ser muito mais difícil.

37. Você é contra ou a favor da obrigatoriedade do diploma de jornalismo?

Sou a favor a uma desregulamentação geral de todos os diplomas, com a exceção daqueles que ameaçam a vida humana. Sou favorável a acabar com todos os diplomas inclusive com o de jornalista.


37.Nós tivemos uma época em que não era obrigatório o diploma e no rádio, por exemplo, nós tivemos grandes radialistas.

Foram vários, o Mino Carta, acho que ele não tem diploma de jornalismo e é um grande jornalista. O Clovis Rossi não tem faculdade de jornalismo. O Borres, não tem com certeza.

Emiriene Costa

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Heródoto Barbeiro

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