Como entender o mundo dos: reféns das drogas

Publicado em: 13/12/2007 - 20h31min

Conseguir se livrar das drogas não é uma tarefa fácil. Para muitos dependentes químicos, encontrar o apoio da família e chegar até uma clinica de recuperação é um grande desafio.

De acordo com as pesquisas, os adolescentes estão entre os principais usuários de drogas. Em media, 13% dos jovens brasileiros com idade entre 16 e 18 anos consomem ou já fizeram uso de algum tipo de droga.

O jovem J.A.S, de 21 anos – que prefere não se identificar – começou a fazer uso de entorpecentes desde os 14 anos e conhece muito bem esta realidade. Morador do subúrbio ferroviário de Salvador, o jovem declara que no inicio usava por influência dos amigos e por pura curtição e não sabia que se tornaria um refém das drogas. “Eu usei por curtição e fui cada vez ficando mais envolvido e acabei viciado”, desabafa.

Por serem substâncias químicas, naturais ou sintéticas, as drogas provocam alterações psíquicas e físicas a quem as consome e levam à dependência também. Até porque, o seu uso sistemático traz serias conseqüências e pode levar o individuo a morte em casos mais extremos, na maioria das vezes por problemas circulatórios ou respiratórios, como é o caso da overdose.

Para J.A.S, a facilidade de se adquirir a droga, seja ela qual for e independente de bairro ou posição social, também contribui para que o jovem embarque nessa viagem, na maioria dos casos, sem volta. O desemprego também é, segundo ele, um dos fatores que aproximam o jovem das drogas, mesmo porque, a falta de ocupação deixa os jovens ociosos e mais propicio a dar o primeiro trago. Ele considera as drogas o mal do século, pois só traz destruição.”No mundo das drogas você vale o que tem. Se você tiver você usa e se você usar e não pagar, você morre”, declara J.A.S.

As pesquisas revelaram que no ano de 2001 cresceu o numero de usuários de crack e das drogas sintéticas, a exemplo do ecstasy. Cresceu também a procura pelos usuários de cocaína por um tratamento para se libertar da dependência. O tratamento é feito através de psicoterapias que promovem a abstinência às drogas e em 60% dos casos com o uso de anti-depressivo.

No Brasil, aproximadamente 5% da população são dependentes químicos de alguma droga. Vale ressaltar que conforme previsto no Código Penal Brasileiro, o uso de drogas é crime e os infratores estão sujeitos a penas que variam de seis meses a dois anos de reclusão.

Mesmo ciente do que rege a lei, o jovem J.A.S admite já ter furtado dinheiro para alimentar o seu vício. “Já corri o risco de morrer por causa das drogas. Eu fiquei devendo, não paguei no dia combinado e eles foram a minha casa para cobrar”, conta o jovem e acrescenta que a sua mãe chorou muito, mas foi preciso conseguir urgente o dinheiro para pagar a sua divida.

Antes de ser um dependente químico, J.A.S tinha uma vida normal como qualquer outro garoto de sua idade: gostava de jogar bola e ficar batendo um papo com os amigos. Hoje, ele não desfruta mais da companhia desses jovens, mesmo porque, os usuários de drogas, são na sua maioria discriminados.

Por já ter feito uso de maconha, cocaína e crack, J.A.S não consegue encontrar forças para deixar de fazer uso sozinho. Para ele, só uma casa de recuperação o ajudaria a vencer esta batalha. “Eu já tentei parar, mas não consigo, eu preciso de uma força maior... preciso encontrar alguém que de fato me ajude e me leve para uma casa de recuperação”, emociona-se o jovem.

Jose Roberto S. Oliveira, de 31 anos, que por durante 14 anos fez uso de drogas, sabe e entende muito bem como é difícil se livrar da dependência química. Ele também experimentou a droga por curiosidade e por influencia de amigos. Ele relata que o usuário de droga não tem credibilidade e por onde passa é discriminado. É visto pela sociedade como um criminoso, um ladrão, ou seja, uma pessoa que não tem nada de bom para oferecer.

De acordo com Jose Roberto, o preconceito ocorre dentro da própria família. Ele já sentiu na pele a indiferença de sua própria irmã, quando o acusou de chefiar uma quadrilha de assaltantes no bairro onde mora. Ele acrescenta ainda que perdeu o emprego por ser usuário de drogas.

Durante o período que fez uso de drogas como a cocaína, maconha e crack, Jose Roberto conta que chegou a gastar todo o valor de sua rescisão de trabalho alimentando seu vício. “Eu entrei no galpão onde a gente usava para fumar às 17 horas e só saí de lá por volta da meia noite, quando já tinha acabado toda droga da região”, relata Jose Roberto e diz que este foi o período mais difícil de sua vida, pois acordava para usar e usava para dormir. Ele já não se preocupava com mais nada, nem mesmo com sua família.

Casado e com três filhos para manter, Jose Roberto diz ter privado sua família de muitas coisas, até porque, todo o dinheiro que recebia era para manter o seu vicio. Entretanto, no momento que decidiu vencer as drogas, foi na família que ela encontrou maior apoio. O carinho e o amor de sua esposa foram de fundamental importância para que ele superasse os obstáculos e prosseguisse.

A estudante S.C.L – que também prefere não se identificar – conta que em um período de 8 meses teve dois irmãos assassinados por estarem envolvidos com drogas. “Eu não imaginava que um dia meus irmãos fossem se envolver com as drogas e quando descobri, acho que já foi tarde demais”, diz a estudante, indignada com a morte dos irmãos.

Para a estudante, a revolta que os seus irmãos tinham do próprio pai, por terem sido maltratados ainda quando adolescente, após a morte de sua mãe, fez com que eles procurassem uma forma mais rápida para conseguir o que sempre sonharam: o trafico de drogas.”Eles só queriam ter uma vida melhor, eram carentes, mas com uma mágoa muito grande dentro deles”, declara a estudante.

De acordo com alguns especialistas a melhor maneira de combater as drogas é através da prevenção. Eles acreditam que a informação o dialogo e a educação são indicados como o melhor caminho para impedir que os adolescentes se viciem. A psicoterapia e a participação em grupos de apoio são tratamentos indicados para aqueles usuários que ainda não estejam viciados. No entanto, para extinguir o vicio, além das terapias são utilizados medicamentos que diminuem os sintomas da abstinência ou que impeçam os efeitos das drogas.

Para o sociólogo Gey Espinheira, a curiosidade natural dos adolescentes é um dos fatores internos de maior influência na experimentação de substâncias psicoativas. De acorde com ele, esta curiosidade os impulsiona a experimentar novas sensações e prazeres, pois o jovem vive o presente, buscando realizações imediatas e os efeitos das drogas vão de encontro a esse perfil, proporcionando prazer passivo e imediato.

O sociólogo acrescenta ainda que os fatores externos como opinião de amigos, modelagem social e o fácil acesso às drogas também propiciam a experimentação da mesma. O sociólogo declara que é preciso promover oportunidades para auto-realização dos jovens e de seu pleno desenvolvimento, buscando a promoção da saúde global e não apenas evitando o uso de drogas.

Jose Roberto está a um ano e três meses sem fazer uso de drogas e diz que não foi preciso ir para casa de recuperação. Para ele, é preciso dialogo e apoio de quem está próximo para superar a dependência química. Como mensagem, ele pede para que ninguém experimente, pois é muito difícil encontrar o caminho de volta. “É difícil você ficar no meio do oceano e voltar batendo os braços... é difícil”, finaliza o jovem e diz que não se sente incomodado de ser chamado pelas pessoas do bairro de conselheiro, mesmo porque, não está fazendo nada mais do que sua obrigação: alertar os jovens.

BOXE

Maconha

Ela é conhecida em alguns paises como marijuana. No Brasil, a falta de vigilância facilita o seu escoamento para diversas áreas do pais. Para o usuário, os efeitos são: avermelhamento dos olhos, ressecamento da boca e taquicardia (elevação dos batimentos cardíacos).

Cocaína

É originaria da planta Erythroxylon coca, natural da Bolívia e do Peru. Os efeitos para quem usa são: aceleração ou diminuição do ritmo cardíaco, dilatação da pupila, elevação ou diminuição da pressão sanguínea, calafrios, náuseas e vômitos, perda de peso e apetite.

Crack

É o resultado da mistura de cocaína, bicarbonato de sódio ou amônia e água destilada. Surgiu no inicio da década de 80 e o seu uso provoca a dependência em curto espaço de tempo. Seus efeitos são: aceleração dos batimentos cardíacos, aumento da pressão arterial, dilatação das pupilas, suor intenso, tremores, excitação, maior aptidão física e mental.

Ecstasy

É uma substancia psicoativa e foi sintetizada pela empresa Merck em 1914. É chamada de droga de recreio ou de desenho, por possuir ação estimulante e alucinógena. Pode ser encontrado em forma de pastilhas, comprimidos, barras, cápsulas ou pó. Seus efeitos são: taquicardia, aumento da pressão sanguínea, secura da boca, diminuição do apetite, dilatação das pupilas, dificuldade em caminhar, reflexos exaltados, vontade de urinar, tremores, transpiração, câimbras ou dores musculares.
Por Ivan Luiz Santana - Mtb 2855

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Salvador, drogas

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