Compulsão alimentar atinge mulheres após traumas em relacionamento

Publicado em: 11/12/2007 - 10h47min

    Como medir os males causados por uma traição? Só quem passou pela experiência sabe o quanto é difícil superar essa dor, e além de tudo, encontrar motivos para vencer as doenças emocionais acarretadas pelo abandono.

     R. Pereira, que não quis se identificar, descobriu que seu marido, com quem vivia há mais de 10 anos, a traiu várias vezes. A constatação resultou em separação e, consequentemente, em depressão. Ela engordou cerca de 20 kilos em apenas duas semanas. “No início parecia que eu ia devorar toda a comida que via pela frente, comia desesperadamente sem noção da quantidade de alimentos que eu estava ingerindo. Tive várias recaídas seguidas por causa de uma depressão profunda. Hoje, depois de terapias e com a ajuda de especialistas, me considero melhor e mais forte para lutar contra isso”, desabafa.

     Muitas pessoas, quando em situação de rejeição real ou imaginária, tendem a sofrer um abalo forte na auto-estima. Segundo o psicólogo Vinicius Farani Lopes, uma desilusão é a queda de uma ilusão, e a pergunta que se faz é: o relacionamento a qual estava inserido é real ou fantasioso?

     Estudos especializados revelam que um dos sintomas que vêm com a traição é a solidão, que decorre de um sentimento de auto-rejeição, o que faz com que muitos, além de se isolarem, procurem comer e comer cada vez mais para esquecerem que estão sós. E esse comportamento pode resultar, muitas vezes, em um distúrbio alimentar, que na maioria dos casos atinge principalmente as mulheres.

     Segundo Vinicius, a compulsão começa com um estado frenético que tende a modificar para uma dificuldade de resistir à comida. Apesar de uma alimentação variada, o consumo de alimentos com alto teor calórico e  doces, tende a ser maior.

     Os motivos que levam a compulsão alimentar são dos mais variados, mas sempre tem como pano de fundo a culpa, a frustração e a raiva. “O comer compulsivamente é uma busca por uma satisfação, por um aconchego que não está sendo encontrado no dia-a-dia. Uma traição pode ser um motivador ao consumo exagerado de comida.”, explica o profissional que é membro da Associação Paulista de Psicologia Analítica.

     Ele também fala que uma das conseqüências do consumo exagerado do alimento é o aumento do peso, que faz crescer ainda mais a frustração e assim culminar na manutenção do ato de comer compulsivamente. “Um dos outros significados do excesso de gordura que vai se acumulando no corpo, é o desejo inconsciente (normalmente) de negar a sexualidade. É preferível criar um corpo gordo e protetor do que entrar em contato com a sexualidade e os perigos que ela acarreta, como por exemplo, uma nova traição. Por isso, é comum neste estado o pensamento ‘não tenho o direito a sentir prazer’”.

     Elizete Cardoso, 24 anos, conta que quando saiu do último relacionamento, acometida por traições freqüentes, passou a comer compulsivamente. “Eu comia sem parar tudo o que via pela frente, porque queria descontar na comida a raiva que eu sentia dele”, relembra. Ela se considera uma compulsiva alimentar. “Sempre que tenho uma crise nervosa eu como muito. Só depois é que me arrependo e aí fico tentando fazer regimes para perder tudo o que consumi.”

     Segundo a doutora em nutrição da USP (Universidade de São Paulo), Andréa Galante, o comportamento de compulsão alimentar, conhecido em inglês como: "binge eating", é definido por um excesso alimentar acompanhado de perda de controle. “O compulsivo come sem perceber o que está comendo e, com isso, ingere uma quantidade incalculável de alimentos em um curto período de tempo, seguida por sentimentos de desconforto físico e de auto-condenação”, fala. Ela explica que esse comportamento definido como Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP) é uma patologia psiquiátrica dentro do grupo de transtornos alimentares, dos quais fazem parte a bulimia e a anorexia nervosa.

     Nesse caso, diz a doutora, “é importante que o compulsivo procure de imediato uma ajuda de profissionais especializados, pois isso é uma doença e tem cura. Quanto mais cedo se descobre o distúrbio alimentar, mais chances de sucesso tem o tratamento, que, para apresentar um bom resultado, necessita envolver médicos, nutricionistas e psicólogos trabalhando em conjunto com o paciente”, conclui. 
 

     Será que você sofre de transtorno alimentar? Responda o questionário abaixo e descubra:

     1.Você se sente mais depressivo(a), raivoso(a), ansioso(a) e com maior tendência ao isolamento, comparando-se com outras pessoas?

       (  ) sim (  )não

     2. Você tem uma vontade incontrolável de comer quando esta nervosa/ansiosa?

       (  ) sim (  )não

     3. Você come quando está triste, com raiva e frustrado(a) só para se sentir melhor?

        (  ) sim (  )não

     4. Sua melhor fonte de lazer e prazer é a comida?

       (  ) sim (  )não

     5. Você sente um enorme sentimento de culpa ao comer muito?

       (  ) sim (  )não

     6. Você promete toda segunda-feira que vai começar uma dieta?

       (  ) sim (  )não

     Resultado: se a maioria das respostas for sim, o aconselhável é que procure o quanto antes uma ajuda médica.

Emiriene Costa

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traição, Vinicius Farani

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